Relação Rio-Cidade: como recriar este vínculo?

Ontem foi o Dia Mundial da Água e não podemos deixar esta data passar em branco. Por isso, falaremos sobre a relação do rio e da cidade, tema que preenche meu coração! Tanto que foi minha escolha de Trabalho Final de Graduação no curso de Arquitetura e Urbanismo.

Antigamente, os rios eram o berço das civilizações. Eles propiciavam o desenvolvimento dos assentamentos, sendo vistos como marcos na paisagem e como fontes de lazer e alimentação.

 

Este é o rio Tietê em 1905, utilizado como local para prática de esportes e lazer por diversos clubes instalados em suas margens. As pessoas tinham contato direto com suas águas e a relação era harmônica e positiva. (Fonte: Instituto Aprendendo.bio).
Este é o rio Tietê em 1905, utilizado como local para prática de esportes e para lazer por diversos clubes instalados em suas margens. As pessoas tinham contato direto com suas águas e a relação era harmônica e positiva. (Fonte: Instituto Aprendendo.bio).

 

Infelizmente, a realidade atual é bem diferente. A partir da urbanização acelerada e industrialização, iniciou-se o processo de ruptura com os cursos d’água em muitas cidades. Esta ruptura se deu como consequência de diversos fatores, porém o principal é a qualidade das águas.

 

Rio Tietê retificado, com segregação acentuada pelas calhas de concreto e confinamento entre as marginais. (Fonte: Sanderlei Silveira).

 

O despejo de efluentes não tratados, contaminação difusa, ocupação das várzeas do rio, impermeabilização do solo e remoção da mata ciliar afetam a qualidade da água e intensificam a ruptura do rio – cidade. Com esta poluição, outras posturas segregativas, como canalização e ocultação dos córregos, vêm sendo adotadas ao longo de décadas.

Assim, os cursos d’água foram perdendo sua importância, deixando de contribuir para o desenvolvimento da cidade e formação da paisagem urbana de qualidade.

 

Nossos cursos d'água totalmente segregados do tecido urbano, reduzidos a barreiras físicas poluídas, que muitas vezes são inclusive tamponados. O rio Verde, por exemplo, está oculto sob o conhecido Beco do Batman, na Vila Madalena. (Fonte: Veja)
Nossos cursos d’água totalmente segregados do tecido urbano, reduzidos a barreiras físicas poluídas, que muitas vezes são, inclusive, tamponados. O rio Verde, por exemplo, está oculto sob o conhecido Beco do Batman, na Vila Madalena. (Fonte: Veja)

 

E como recriar o vínculo perdido em décadas de urbanização descontrolada?

A resposta direta para esta questão é simples: fazer com que as pessoas criem identidade com o rio e suas várzeas. Mas colocar esta solução em prática não é tarefa fácil. O rio é dinâmico e sua recuperação engloba diversos fatores, o que dificulta a reintegração no território urbano.

Para auxiliar um pouco o processo e sair da abstração, foi criada uma cartilha chamada Ecological Riverfront Design, que dá alguns parâmetros orientadores para projetos relacionados aos cursos d’água. Eles falam, principalmente sobre o planejamento urbano de orlas fluviais, com fatores funcionais e estéticos, e sobre as questões ambientais, de enchentes, de falta de áreas verdes e de lazer nas cidades.

 

Primeiro, a análise:

O primeiro passo é analisar as condições do rio ou córrego em estudo. Segundo os conceitos do Ecological Riverfront Design, esta análise contempla:

  • A intensidade de urbanização, medida através da porcentagem de áreas impermeáveis da orla. É melhor dividir o rio em trechos, para que cada projeto esteja de acordo com a situação verdadeira da área:
    • 80-100%: super urbanizado;
    • 40-79%: urbanizado;
    • 10-39%: subúrbio.
  • O impacto ambiental e qual possível abordagem para sua reestruturação;
  • A geometria do curso d’água, com sua extensão, largura, nível d’água, etc;
  • A vocação do lugar e suas características únicas;
  • Levantamento de infraestruturas já existentes, como dutos e pontes, para integrá-los no projeto de requalificação;
  • O papel do rio na bacia hidrográfica, com análise do escoamento das águas pluviais, fontes difusas de poluição, erosões, etc. Essa observação pode trazer respostas sobre a fonte poluidora destas águas.

 

Reconectando o Rio e a Cidade:

Com estes dados em mãos, conseguimos propor soluções pertinentes a cada trecho analisado. Por ser um projeto de uma alta complexidade, muitas vezes há necessidade de fazer alguma cessão para atingir um objetivo maior. Lembrando que os propósitos ecológicos e econômicos se beneficiam mutuamente e que continuidade do rio propicia a criação de importantes parques lineares nas cidades, onde podemos reconstruir a matriz ecológica e criar diversas conexões.

Segundo o Ecological Riverfront Design, a participação ativa da comunidade no planejamento e no projeto da orla fluvial passa a sensação de pertencer às pessoas, fortalecendo o vínculo com o futuro lugar criado. Afinal de contas, a orla será o novo local de encontro… Os urbanistas têm que tirar o máximo de proveito desta fase inicial para ouvir, desenvolver ideias e para mostrar para a sociedade a importância da relação rio – cidade.

O projeto deve não apenas dispor de conexões e áreas de lazer de usos públicos, como englobar toda a funcionalidade do rio, ou seja:

 

  • Sempre proteger e restituir as funções hidrológicas;
  • Melhorar a drenagem, com o pensamento que o sistema hídrico é algo dinâmico;
  • Restabelecer o ecossistema, tanto a matriz ecológica, quanto o entorno;
  • Revelar a fauna, flora e cultura do lugar, com programas educacionais.

 

Não seria ótimo seguir o exemplo coreano e transformar nossos rios em lugares de renovação paisagística?

 

Estas eram as condições de uma região de Seul. O rio Cheong Gye Cheon foi tamponado, devido a poluição de suas águas, e seu fechamento possibilitou a construção de vias. (Fonte: Kcet).

 

E esta é a nova paisagem urbana: a cidade volta a ter contato com o rio, o ecossistema foi restabelecido e infraestruturas importantes, como de drenagem e de tratamento das águas, foram incorporadas no projeto. (Fonte: Kcet).

 

 


Fontes:

Instituto Aprenda.bioKcetSanderlei Silveira  – Veja

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